{"id":8418,"date":"2021-08-18T10:49:27","date_gmt":"2021-08-18T13:49:27","guid":{"rendered":"https:\/\/felipematias.com.br\/bereia\/?p=8418"},"modified":"2021-08-18T10:49:31","modified_gmt":"2021-08-18T13:49:31","slug":"universidade-missao-e-igreja-para-poucos-ou-para-todos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/felipematias.com.br\/bereia\/universidade-missao-e-igreja-para-poucos-ou-para-todos\/","title":{"rendered":"Universidade, miss\u00e3o e igreja: para poucos ou para todos?"},"content":{"rendered":"\n<p>O Ministro da Educa\u00e7\u00e3o \u00e9 pastor presbiteriano. Eu tamb\u00e9m sou, desde 1996. Em entrevista \u00e0 TV Brasil, no dia 10\/08\/2021, Milton Ribeiro declarou que &#8220;universidade deveria, na verdade, ser para poucos\u201d. A frase provocou questionamentos, por parte da comunidade acad\u00eamica; gerou indigna\u00e7\u00e3o entre estudantes e suas fam\u00edlias e, tamb\u00e9m, incentivou reflex\u00f5es sobre o papel da Universidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O contexto da frase acompanha a l\u00f3gica de incentivo \u00e0 educa\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica &#8211; voltada para o mercado de trabalho. No discurso e na pr\u00e1tica \u2013 que se traduz em verbas cortadas ou reduzidas (veja o gr\u00e1fico no final do texto) \u2013 o Brasil vive um momento de desindustrializa\u00e7\u00e3o, de subordina\u00e7\u00e3o aos processos produtivos internacionais, condenando o pa\u00eds \u00e0 mera posi\u00e7\u00e3o de exportador de mat\u00e9rias-primas, min\u00e9rios, alimentos e prote\u00edna animal. Todavia, a engenharia nacional, capaz de produzir no passado, jatos da EMBRAER, poderia tamb\u00e9m produzir tecnologia 5G.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse texto, n\u00e3o vamos discutir os pontos acima, mas questionar qual seria a vis\u00e3o de um pastor presbiteriano acerca da universidade. Qual seria a vis\u00e3o da Igreja Evang\u00e9lica acerca da educa\u00e7\u00e3o? Optamos pelo modelo de educa\u00e7\u00e3o e evangeliza\u00e7\u00e3o para as elites?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para ajudar, h\u00e1 muitas pistas, livros e institui\u00e7\u00f5es. No livro \u201cProtestantismo e Educa\u00e7\u00e3o Brasileira\u201d, o professor e pastor presbiteriano Osvaldo Henrique Hack, descreve como o impacto dos mission\u00e1rios protestantes (presbiterianos, congregacionais, metodistas e batistas) transformou a educa\u00e7\u00e3o do Brasil e promoveu uma evangeliza\u00e7\u00e3o consistente, interiorizada.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 12 de agosto, dois dias depois da fala do ministro, presbiterianos recordaram que, em 1859, o primeiro casal de mission\u00e1rios chegou ao Brasil &#8211; Rev. Ashbel Green Simonton e Helen Murdoch Simonton. Helen morreria no parto de sua primeira filha (1864) e Ashbel faleceu de febre amarela (1867). Atualmente, seriam ambos salvos pelo SUS \u2013 com suas maternidades e vacinas.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O casal Simonton, al\u00e9m de organizar igrejas, tamb\u00e9m criou o primeiro semin\u00e1rio, o primeiro jornal e uma escola. Todos os quatro casais de mission\u00e1rios pioneiros (Simonton, Blackford, Schneider e Chamberlain) organizaram igrejas e escolas. Havia, inclusive um lema: \u201cao lado de cada igreja, uma escola\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De fato, os mission\u00e1rios acreditavam que \u201coutro meio indispens\u00e1vel para assegurar o futuro da igreja evang\u00e9lica no Brasil \u00e9 o estabelecimento de escolas\u2026 <em>O Evangelho d\u00e1 est\u00edmulo a todas as faculdades do homem e o leva a fazer os maiores esfor\u00e7os para avantajar-se na senda do progresso.<\/em>\u201d (Relat\u00f3rio Pastoral de Ashbel Green Simonton, em 1867, cujo original encontra-se no Arquivo Presbiteriano)<\/p>\n\n\n\n<p>James Cooley Fletcher, mission\u00e1rio presbiteriano, filho do banqueiro Calvin Fletcher, graduado na Universidade Brown e Princeton (EUA) foi um dos mais ativos agentes na implanta\u00e7\u00e3o dessa miss\u00e3o educacional. Entre 1851 e 1856 Fletcher atuou no Brasil, como agente da Uni\u00e3o Americana de Escolas Dominicais e representante da Uni\u00e3o Crist\u00e3 Americana Estrangeira, quando viajou quase cinco mil quil\u00f4metros Brasil adentro &#8211; distribuindo B\u00edblias, incentivando escolas, patrocinando mission\u00e1rios e, principalmente, difundindo o sistema educacional norte-americano. Curiosamente, no Brasil, chamava-se \u00e0 \u00e9poca o sistema estadunidense de \u201c<em>sistema escolar socialista de Horace Mann<\/em>\u201d.&nbsp; Em 1866. Fletcher escreveu ao imperador Pedro II, convidando o ministro Joaquim Maria Nascentes de Azambuja e uma delega\u00e7\u00e3o brasileira para visitar escolas e universidades nos EUA. Fletcher, Azambuja (que tornou-se Diretor de Instru\u00e7\u00e3o P\u00fablica nas Prov\u00edncias do Esp\u00edrito Santo e Par\u00e1) e principalmente o Deputado Aureliano C\u00e2ndido Tavares Bastos iniciaram uma campanha p\u00fablica de cr\u00edticas ao sistema educacional brasileiro. Em 1869, falando no Senado, Francisco de Paula Silveira Lobo, irm\u00e3o do jornalista e l\u00edder abolicionista Aristides Lobo lembrava que \u201cna pr\u00f3pria C\u00f4rte havia apenas 4.800 alunos prim\u00e1rios para uma popula\u00e7\u00e3o estimada em 400 000 a meio milh\u00e3o de almas\u201d. Ou seja, segundo o Censo de 1872,&nbsp; a taxa de analfabetismo era de 77,2% (RJ) , 87,1% (PB) e 87,0% (CE). Havia grande disparidade, mas como se pode perceber, a educa\u00e7\u00e3o era para poucos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O analfabetismo era, desde a origem do movimento mission\u00e1rio, o grande problema. No Brasil, para fins de compara\u00e7\u00e3o, a alfabetiza\u00e7\u00e3o surge como quest\u00e3o nacional somente com a reforma eleitoral de 1882 (Lei Saraiva), a qual conjugava \u201ccenso pecuni\u00e1rio\u201d (econ\u00f4mico) com o \u201ccenso liter\u00e1rio\u201d, proibindo o voto do analfabeto. A Constitui\u00e7\u00e3o Republicana de 1891, acabou com o \u201ccenso econ\u00f4mico\u201d, mas manteve o \u201ccenso liter\u00e1rio\u201d (vetando direitos pol\u00edticos aos analfabetos).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, n\u00e3o era raro que os mission\u00e1rios protestantes fossem acusados de \u201cagita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d e \u201csocialismo\u201d por conta de seus esfor\u00e7os alfabetizadores. Na tabela abaixo constatamos que, ainda agora, no Censo 2000, na capital da Rep\u00fablica, n\u00e3o erradicamos o analfabetismo. Portanto, junto com a Miss\u00e3o, a educa\u00e7\u00e3o ainda \u00e9 tarefa da Igreja. Pois como ler\u00e3o as Sagradas Escrituras se n\u00e3o sabem ler? Que esp\u00e9cie de igreja pode ser gerada sem leitura?\u00a0<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/xgJxwElXKIhGgE3ezFOylX50hH05VChPutzwsPRvhTHU--tE6OZ5dFfHhFEIRgL5tLfQNYrjj8YkvfFVYVh0zb8ppcaGkeGyzrBgybK6rVXqiUfrpD0J5GiLbLkcitfRMfr2Gas\" alt=\"\"\/><figcaption>Tabela \u2013 Percentuais de Analfabetismo no Brasil (de 1872 a 2000)<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Horace Mann defendia uma educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, universal e gratuita, para todos \u2013 como forma de alfabetizar, civilizar e gerar progresso e prosperidade. Todos os mission\u00e1rios pensavam da mesma forma. Os batistas chegaram registrar a necessidade de fundarem pelo menos um col\u00e9gio em cada capital do pa\u00eds. Textualmente: \u201ca superioridade das doutrinas batistas n\u00e3o ser\u00e1 demonstrada ao povo brasileiro exclusivamente no campo da evangeliza\u00e7\u00e3o. \u00c9 justamente no campo da educa\u00e7\u00e3o que o Evangelho produz os seus frutos seletos e superiores, homens preparados para falar com poder \u00e0 consci\u00eancia nacional\u201d (Cabtree, A. Hist\u00f3ria dos Batistas, Casa Publicadora Batista, 1962, p. 125) William Buck Bagby (mission\u00e1rio pioneiro na implanta\u00e7\u00e3o das miss\u00f5es batistas no Brasil) defendia a tese de que \u201c<em>col\u00e9gios preparar\u00e3o o caminho para a marcha das igrejas<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>De fato, os mission\u00e1rios implantavam, junto com os educand\u00e1rios, sistemas educacionais e pr\u00e1ticas, consideradas avan\u00e7adas para o s\u00e9culo XIX. O Rev. George Whitehill Chamberlain (1839-1902), educador pioneiro, ordenado pastor pelo Presbit\u00e9rio Rio de Janeiro, em 8 de julho de 1866, fundou em 1870 S\u00e3o Paulo, junto com sua esposa Mary Chamberlain, a Escola Americana, o embri\u00e3o daquilo que viria a se tornar a Universidade Mackenzie. Uma escola mista (para meninos e meninas, inter-racial, multicultural e com aulas de educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica) era um \u201cesc\u00e2ndalo\u201d para uma sociedade escravagista, racista, machista &#8211; e a pr\u00e1tica de esportes esbarrava no decoro p\u00fablico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em sua correspond\u00eancia \u00e0 Junta de Nova Iorque (EUA) para justificar o investimento de recursos para a nova tarefa, Chamberlain registra \u201co fato de as filhas e filhos de muitos pais brasileiros n\u00e3o evang\u00e9licos, <em>pertencentes \u00e0s correntes republicanas e abolicionistas<\/em> (grifo nosso), tamb\u00e9m sofrerem persegui\u00e7\u00f5es\u201d (Garcez, Benedito. Mackenzie, Casa Editora Presbiteriana, 1970. p. 32)&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A Junta de Miss\u00f5es da Igreja Presbiteriana dos EUA n\u00e3o somente percebeu a oportunidade, como tamb\u00e9m determinou que a nova escola deveria \u201c<em>observar o sistema de ensino americano (EUA): escola mista para ambos os sexos; liberdade religiosa, pol\u00edtica e racial (grifo nosso)<\/em>. Educa\u00e7\u00e3o baseada nos princ\u00edpios da moral crist\u00e3, segundo as normas das Santas Escrituras, atendendo ao conceito protestante que exclui da escola a campanha religiosa, limitando-se \u00e0s quest\u00f5es de moralidade \u00e9tica, contidas no ensino de Cristo\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1897, o \u201cProtestant College\u201d mudou o seu nome para \u201cMackenzie College at S\u00e3o Paulo\u201d. A mudan\u00e7a foi uma homenagem a John Theron Mackenzie, (1818-1892), advogado e filantropo, o qual por meio de testamento, doou parte de sua heran\u00e7a, \u00e0 ent\u00e3o &#8220;Escola Americana&#8221; (hoje Universidade Presbiteriana Mackenzie). Morreu em 17 de setembro de 1892, aos 74 anos de idade e seu testamento dedicava um ter\u00e7o de seus bens \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma <strong>escola de engenharia<\/strong> na ent\u00e3o Escola Americana, que passou a chamar-se Universidade Presbiteriana Mackenzie.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 desnecess\u00e1rio dizer que n\u00e3o havia campo de trabalho para engenheiros no Brasil na segunda metade do s\u00e9culo XIX \u2013 a base de nossa economia era, como ainda \u00e9, o agro.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, vincular a oferta de vagas de ensino ao mercado, \u00e9 um erro hist\u00f3rico \u2013 que penaliza as futuras gera\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para encerrarmos esse in\u00edcio de debate sobre a vis\u00e3o, miss\u00e3o e tarefa para a Igreja Evang\u00e9lica no Brasil cabe perguntar: se os presbiterianos do s\u00e9culo XIX tivessem uma vis\u00e3o estreita, de uma universidade para poucos ou de uma igreja seletiva (apenas para uma classe), n\u00f3s estar\u00edamos aqui hoje?&nbsp; Existiria uma Universidade Mackenzie? Existiria curso de engenharia na universidade plantada em um pa\u00eds exportador de caf\u00e9 e a\u00e7\u00facar?<\/p>\n\n\n\n<p>O papel de uma Universidade \u00e9 formar apenas gente para o mercado de trabalho?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O papel de uma Igreja \u00e9 apenas influenciar algumas poucas pessoas e lugares exclusivos?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O que \u00e9 uma Miss\u00e3o Crist\u00e3?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o perguntas que me surgem quando olho para o passado, quando me entriste\u00e7o diante do presente e quando creio que o futuro h\u00e1 de levantar uma gera\u00e7\u00e3o de pregadores e pregadoras que n\u00e3o seja formada apenas para agradar aos interesses da ocasi\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Lan\u00e7o ent\u00e3o, esta&nbsp; mensagem, como numa garrafa, a balan\u00e7ar nas ondas desse informar, como um pequeno fio nessa rede. Vamos debater o papel da Universidade e da Educa\u00e7\u00e3o? Ser\u00e1 poss\u00edvel que sou o \u00fanico a imaginar que escolas e centros universit\u00e1rios devem ser lugares de inova\u00e7\u00e3o, transforma\u00e7\u00e3o e progresso? Seria a Miss\u00e3o da Igreja um fermento para o Mundo?<\/p>\n\n\n\n<p>Se quiser continuar essa conversa, mande um e-mail. Ficarei imensamente grato pela sua opini\u00e3o e estou aberto para ampliar esse di\u00e1logo: revmello@gmail.com.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><br><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"643\" height=\"361\" src=\"https:\/\/lh6.googleusercontent.com\/3qvbc_4xg_Lgu4oE9c_-_85wnB2jCQ19ObWiZQu9kW2vgKv0pG5ZKTe3rykVG3TH-iemkfX_ClPrhZshThxwmLEBTe34L3idicMfNGn1VgZV09yyAV_Z-uHlxA7WSji3S9egGRU\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">Gr\u00e1fico \u2013 Investimento nas Universidades (MEC\/Brasil)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Ministro da Educa\u00e7\u00e3o \u00e9 pastor presbiteriano. Eu tamb\u00e9m sou, desde 1996. 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